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Pedro Carvalho: "Os bufetes escolares e os indignados do costume"

Domingo, Setembro 5, 2021 - 10:36
Publicação
Público

O argumento “não se deve proibir, deve-se ensinar” é válido, até porque o consumo destes alimentos nas escolas não passou a ser proibido. A sua venda é que sim. Seria o mesmo que as escolas alertarem para os malefícios do consumo de álcool e tabaco, mas venderem os mesmos lá dentro

Existe sempre um conjunto de pessoas que todos os dias quando se levanta da cama, olha para o telemóvel, abre as suas redes sociais e questiona a si mesmo: “Com o que é que eu me vou indignar hoje?”

E se poderíamos pensar que uma decisão hipoteticamente consensual (melhorar a oferta alimentar nas escolas) tornada pública num momento em que grande parte do país está de férias seria aceite sem grandes ondas, o que se verificou foi o oposto. Deputados a contestar a decisão sob o argumento que até seria compreensível proibir a venda de croissants, pizzas e chocolates, mas um abuso fazer o mesmo a alimentos tradicionais como pão com chouriço, empadas e pastéis de bacalhau (até porque o nosso fígado, pâncreas e artérias sabem perfeitamente a diferença entre o açúcar, gordura e colesterol proveniente de alimentos “industriais” ou “caseirinhos”); capas de jornais a anunciar “Levantamento de Rancho” com testemunhos de pais indignados; e comparações absurdas entre vacinação e disponibilidade alimentar nas escolas.

É interessante constatar que esta medida mais não é do que dizer “malta, agora é a sério” relativamente às Orientações para os Bufetes Escolares publicadas já em 2012. Como essas orientações à época foram exactamente isso, “orientações” (e não algo obrigatório), o que aconteceu nos bufetes escolares e máquinas de vending foi que, bem “à portuguesa”, se foi “deixando andar”. Um estudo feito em 2018 concluiu que apenas 1,3% das 161 escolas analisadas respeitavam a proporcionalidade entre os alimentos e promover e a evitar preconizada nestas orientações, o que é sintomático de como as coisas funcionam na nossa cultura. Apelar ao “bom senso” e à “educação alimentar” é bonito de dizer, mas só quando se tomam medidas mais drásticas se observam resultados. A taxação das bebidas açucaradas em 2017 fez com que o seu consumo diminuísse e mais importante ainda, que a indústria fizesse um esforço em reduzir a quantidade de açúcar das próprias bebidas. E possivelmente não aconteceu o mesmo em relação ao sal porque uma proposta semelhante foi chumbada no Parlamento.

Leia o artigo na íntegra aqui.