Ana Carolina Cruz é licenciada em Ciências da Nutrição pela Escola Superior de Biotecnologia da Universidade Católica Portuguesa. Descreve-se como “sonhadora” e deseja “contribuir para uma sociedade mais informada através da literacia e da educação alimentar”. Durante a sua licenciatura, integrou o Conselho Pedagógico da Escola Superior de Biotecnologia e realizou dois estágios em contextos comunitários, com crianças e idosos. Nesta entrevista, explica a importância da Nutrição, como base “do cuidado, da prevenção e do futuro”.
Que valores leva consigo da sua formação na Escola Superior de Biotecnologia?
Da Católica, levo valores como o rigor científico, o espírito crítico, o sentido de responsabilidade e uma forte consciência humana. Esta formação ensinou-me a olhar para cada pessoa de forma integral, respeitando o seu contexto, e consolidou o meu compromisso para com uma nutrição empática e de qualidade.
Que mensagem deixaria aos novos estudantes que agora iniciam o seu percurso em Ciências da Nutrição?
Diria para procurarem o equilíbrio entre o estudo e as atividades extracurriculares. Aproveitem ao máximo esta fase tão especial! Arrisquem, experimentem e participem no que a Escola Superior de Biotecnologia oferece. Quem sabe se não acabam por descobrir, tal como eu, novas paixões pelo caminho...
“O meu objetivo é contribuir para uma sociedade mais informada através da literacia e da educação alimentar.”
Porque escolheu o curso de Ciências da Nutrição e o que é que a fascina nesta área?
Durante o ensino secundário, apesar de saber que a universidade seria o passo seguinte, tive alguma incerteza quanto à área que queria seguir. Nesse período de pesquisa e reflexão, descobri, quase por acaso, um vídeo acerca do curso de Ciências da Nutrição e o interesse foi imediato. À medida que fui conhecendo melhor o curso, as suas áreas de atuação, e o seu impacto real na saúde e na vida das pessoas, tive a certeza de que este seria o meu caminho. Preparei-me com empenho para o acesso ao curso e candidatei-me à Universidade Católica Portuguesa. Ser admitida foi um dos momentos mais felizes da minha vida! Hoje, já licenciada, posso afirmar que a Nutrição vai muito além da alimentação saudável. O que mais me entusiasma é a sua profunda dimensão humana. A alimentação é uma das formas de amor mais puras, presente desde a infância até à velhice, e tem um impacto que permanece na memória e na saúde ao longo de toda a vida.
“A intervenção comunitária é fundamental, pois permite-nos compreender as pessoas que estão do outro lado, os seus desafios diários”
Como é que descreve a sua experiência académica na Escola Superior de Biotecnologia?
A minha experiência académica foi muito enriquecedora e exigente, mas também acolhedora. Destaco a proximidade entre estudantes e docentes, que cria um ambiente de apoio fundamental para a aprendizagem e para o crescimento pessoal. Foram quatro anos de grande evolução, nos quais consegui conciliar os estudos com atividades extracurriculares, preparando-me com confiança para o futuro.
Integrou o Conselho Pedagógico da Escola Superior de Biotecnologia...
Juntei-me pela vontade de participar de forma mais ativa na vida académica e de contribuir para a melhoria da experiência dos estudantes. Foi um desafio que me obrigou a sair da zona de conforto e permitiu-me desenvolver soft skills fundamentais, como a gestão do tempo, a comunicação e o sentido de responsabilidade.
No quarto ano da licenciatura, estagiou na Casa Sacerdotal da Diocese do Porto e no Centro Social Paroquial do Padrão da Légua. De que forma é que estas experiências moldaram a sua visão sobre o papel do nutricionista?
São experiências que guardo com muita nostalgia e carinho, sobretudo pelo modo como fui acolhida, e que reforçaram o meu gosto pela Nutrição. Tive a oportunidade de trabalhar em contextos reais com duas populações distintas - idosos e crianças -, o que exigiu uma constante capacidade de adaptação e empatia. Acredito que a intervenção comunitária é fundamental na nossa formação, pois permite-nos compreender as pessoas que estão do outro lado, os seus desafios diários. Ajuda-nos também a perceber de que modo os fatores socioeconómicos, culturais e emocionais influenciam as escolhas alimentares. Essa compreensão está na base de uma prática mais humanista, ética e consciente da realidade, permitindo-nos desenvolver estratégias adequadas às necessidades de cada grupo e contexto e, assim, mais eficazes.
“Uma alimentação saudável perfeita não existe, mas procuro sempre fazer escolhas conscientes e adequadas à minha rotina diária.”
Mencionou a importância das atividades curriculares no seu percurso. Qual gostaria de destacar?
O projeto “Todos pra Mesa”, uma iniciativa de educação alimentar infantil desenvolvida pela nutricionista Catarina Trindade (também alumna da ESB). Durante um mês, participei nos campos de férias do projeto, onde dinamizámos diversas atividades com crianças, incluindo a confeção diária de receitas para almoços e lanches. O grande objetivo era mostrar que comer de forma equilibrada não tem de ser aborrecido. Através de dinâmicas onde as crianças podiam “pôr as mãos na massa”, incentivámo-las a experimentar novos sabores e a desenvolver uma relação mais positiva com a comida. Esta experiência permitiu-me colocar a teoria em prática, num contexto pedagógico, e testemunhar o potencial da nutrição como ferramenta de mudança. Aprendi que, quando se constrói uma base sólida desde cedo, o impacto nas escolhas futuras é determinante. Também, hoje em dia, a minha alimentação é mais equilibrada, variada e colorida, mas não é perfeita. Uma alimentação saudável perfeita não existe, mas procuro sempre fazer escolhas conscientes e adequadas à minha rotina diária.
Atualmente, está a especializar-se em Educação Alimentar. Considera que é uma dimensão importante das Ciências da Nutrição?
Embora ainda seja pouco valorizada pela sociedade, estou convicta de que o seu reconhecimento será crescente. É essencial saber comunicar e compreender as dificuldades associadas à mudança de comportamentos, capacitando as pessoas para que façam escolhas informadas e autónomas. Há ainda desafios, associados à desinformação, à diversidade sociocultural e à necessidade de conciliar a personalização com a base da evidência científica.
Que papel gostaria de desempenhar na construção de uma sociedade mais consciente e saudável?
Considero-me uma pessoa sonhadora e o meu objetivo é contribuir para uma sociedade mais informada através da literacia e da educação alimentar, de forma criativa e dinâmica. Para mim, a Nutrição é a base de tudo: do cuidado, da prevenção e do futuro.
Que livro/podcast recomendaria a quem se interessa por esta área?
Recomendo o livro “Novos Mitos que Comemos”, do nutricionista Pedro Carvalho, pela sua abordagem muito acessível. Na área da educação alimentar, destaco o podcast “Histórias Pra Mesa”, que considero particularmente interessante por dar voz às crianças e às suas perceções sobre a alimentação.
Pessoas em Destaque é uma rubrica de entrevistas da Universidade Católica Portuguesa, Centro Regional do Porto.