João Bebiano e Costa é investigador e gestor de tecnologia e inovação no Centro de Biotecnologia e Química Fina e docente na Escola Superior de Biotecnologia da Universidade Católica. O entusiasmo pela descoberta e o gosto pela “magia” de partilhar conhecimento marcam o seu percurso de ensino e investigação nas áreas da engenharia de tecidos e da biofabricação. Nesta entrevista, fala sobre a importância da personalização na inovação em saúde, e sobre as oportunidades e desafios na colaboração entre investigação e indústria. Aos seus alunos, procura transmitir uma visão multidisciplinar, fazendo-os “pensar além do laboratório”, e sensibilizando-os para a normalidade e o valor dos resultados inesperados. A sua recomendação para quem está a começar? “Procurem uma área que vos motive e vos faça querer levantar todos os dias para serem melhores investigadores.”
Enquanto investigador e docente, o que é que mais o entusiasma quando chega ao laboratório ou à sala de aula?
No laboratório, o que mais me motiva é a busca pela descoberta e a possibilidade de, num determinado momento, se confirmar a hipótese científica que está na base de um projeto de investigação. Atualmente, desempenho sobretudo o papel de orientador, o que me permite acompanhar de perto novos investigadores e celebrar com eles as suas experiências bem-sucedidas, o que torna o meu trabalho ainda mais gratificante.
Na sala de aula, entusiasma-me a partilha de conhecimento. Quando encontro alunos genuinamente curiosos, torna-se particularmente estimulante poder ajudá-los a saciar essa curiosidade em áreas pelas quais sou profundamente apaixonado, como a biofabricação e a engenharia de tecidos.
Em que momento percebeu que queria seguir a carreira académica e científica?
Foi um caminho que começou a desenhar-se desde cedo, mas o momento decisivo aconteceu durante a minha tese de mestrado, que desenvolvi num ambiente fortemente voltado para a investigação, com orientadores que me desafiavam diariamente. A procura do desconhecido, a necessidade constante de resolver problemas e a satisfação de ver o meu trabalho culminar numa tese ou num artigo científico foram determinantes para querer prosseguir para o doutoramento.
Paralelamente, sempre tive o objetivo de ser professor universitário. Os meus pais são professores e, desde muito novo, cresci rodeado pela “magia” de ensinar. Sabia que, para isso, teria de seguir uma carreira académica sólida - e, felizmente, esse percurso acabou por se concretizar.
Como descreveria um dia “normal” de trabalho de um investigador?
A primeira coisa a esclarecer é que um investigador raramente tem um dia “normal”. O nosso trabalho é altamente dinâmico e, muitas vezes, imprevisível. Os resultados das experiências que realizamos podem ditar completamente como o resto do dia - ou da semana - vai decorrer. Se estamos à procura do desconhecido, também o nosso dia a dia é, em grande parte, desconhecido.
Este dinamismo é simultaneamente um fator de atração, pelo desafio intelectual constante, e um fator de afastamento, já que nem todos lidam bem com a incerteza.
Mas o trabalho de um investigador não se resume ao laboratório. Divido o meu tempo entre orientação de estudantes, reuniões, revisão de relatórios, teses e artigos científicos, escrita de projetos para captação de financiamento, gestão científica e financeira de projetos em curso, e ainda participação em conferências e atividades de networking. Menos imprevisível, mas extremamente estimulante - e é precisamente isso que me motiva nesta carreira.
O que distingue a Escola Superior de Biotecnologia e o Centro de Biotecnologia e Química Fina como espaço para fazer investigação e formar estudantes nestas áreas?
A Escola Superior de Biotecnologia distingue-se pela grande proximidade que é criada, desde muito cedo, entre os estudantes de licenciatura e mestrado e a investigação científica. Os alunos, docentes e investigadores partilham os mesmos espaços, o que facilita o contacto direto com a investigação e contribui decisivamente para a formação e motivação dos estudantes.
Outro fator distintivo é a forte ligação da ESB e do CBQF ao tecido empresarial português. Esta proximidade permite o desenvolvimento frequente de projetos de investigação translacional com elevado valor científico, tecnológico e impacto real na sociedade.
“Para que os resultados ultrapassem o contexto do laboratório, é essencial que a investigação seja desenvolvida em contacto permanente com os principais stakeholders”
A sua investigação centra-se na medicina regenerativa, em engenharia de tecidos e na biofabricação, com especial foco em implantes ortopédicos personalizados. Porque é que a personalização é hoje um elemento-chave na inovação em saúde?
A medicina está, de facto, a evoluir cada vez mais no sentido da personalização. Se não existem dois seres humanos iguais, é lógico concluir que os tratamentos também não deveriam ser iguais.
No caso dos implantes ortopédicos, esta questão torna-se particularmente relevante, uma vez que a anatomia de cada pessoa é um fator determinante. Costumo ilustrar isto junto dos meus alunos perguntando: “Acham que o meu joelho é igual ao vosso? Acham que um implante para o meu joelho deveria ser igual ao vosso?” A resposta é sempre negativa e a importância da personalização torna-se imediatamente evidente.
Do ponto de vista técnico, a personalização de implantes ou tratamentos tem o potencial de aumentar a taxa de sucesso e acelerar a recuperação. Esta é a nossa hipótese científica, que ainda precisa de ser comprovada, mas que representa um dos grandes desafios - e também uma das grandes oportunidades - da inovação em saúde.
Para isso, trabalha com tecnologias avançadas, como impressão 3D e desenvolvimento de novos bioinks (materiais biológicos para bioimpressão). Quais são hoje os principais desafios quando se tenta levar estas soluções do laboratório para a prática clínica?
Por um lado, estas tecnologias ainda apresentam um baixo grau de maturação. Apesar de o seu enorme potencial já ter sido demonstrado, a eficácia clínica exige tempo, validação rigorosa e um investimento financeiro muito significativo para avançar para ensaios clínicos.
Acresce o facto de os custos tecnológicos serem elevados e de a carga regulamentar associada à aprovação para uso em humanos ser particularmente complexa.
Por último, existe uma necessidade de standardização, tanto no recurso às tecnologias de impressão 3D como no desenvolvimento e aplicação de bioinks, através da definição de protocolos robustos e reprodutíveis.
Para além da investigação, tem um papel ativo na transferência de tecnologia e valorização do conhecimento no CBQF. O que mudou, nos últimos anos, na relação entre a academia e a indústria - e o que ainda falta fazer para garantir que a investigação tenha impacto para além do laboratório?
A ligação à indústria e, na minha área, também aos hospitais, tem de ser contínua. A investigação científica procura responder a problemas reais da sociedade ou melhorar processos com impacto direto nas pessoas. Para que os resultados ultrapassem o contexto do laboratório, é essencial que a investigação seja desenvolvida em contacto permanente com os principais stakeholders, nomeadamente empresas, profissionais de saúde, consumidores e pacientes.
Os casos de sucesso desempenham também um papel fundamental - à medida que aumentarem os exemplos bem-sucedidos de colaboração entre academia e indústria, torna-se mais fácil acelerar a transferência do conhecimento científico para a sociedade.
O seu percurso inclui outras experiências: na indústria, na gestão de projetos, e ainda uma formação em gestão hospitalar. De que forma esta visão multidisciplinar influência a forma como pensa, ensina e desenvolve ciência?
A multidisciplinaridade é absolutamente essencial: é importante conseguirmos ver várias perspetivas sobre um mesmo problema, para conseguirmos identificar soluções e os principais desafios às mesmas.
A forma de pensar de um investigador é muito diferente da de um CEO, de um investidor de capital de risco, de um médico ou de um paciente. O investigador procura descobrir, o CEO procura robustez e viabilidade económica, o investidor quer retorno, o médico valoriza a eficácia e a facilidade de aplicação, e o paciente quer soluções que funcionem e sejam acessíveis. Todas estas perspetivas são cruciais para desenvolver ciência aplicada e aumentar a probabilidade de transferência da investigação para a sociedade. No ensino, tento transmitir esta visão aos meus alunos, preparando-os para pensar além do laboratório.
“Tentem sempre olhar para o problema como uma página em branco, alargando constantemente o vosso leque de perspetivas.”
Como lida com os momentos em que os resultados não surgem como esperado?
Quando trabalhamos em inovação, é natural que muitos resultados não correspondam às expectativas iniciais. Se isso não acontecer, provavelmente não estamos a ser suficientemente ambiciosos.
É importante não classificar resultados inesperados como “maus”, mas sim como informação valiosa - perceber que uma determinada abordagem não funciona é, por si só, um avanço.
A partir daí, torna-se essencial definir rapidamente um “plano B”, reorganizar a estratégia experimental e voltar a focar no próximo passo. Admito que aprender a lidar com esta realidade levou tempo e hoje procuro educar os meus alunos para esta forma de encarar a investigação. Este processo ajuda a aliviar a frustração e a manter a motivação.
Que conselho deixaria a jovens investigadores que ambicionam uma carreira científica com impacto real na saúde, na inovação e na sociedade?
Acredito genuinamente que tudo começa com a paixão. Procurem uma área que vos motive e vos faça querer levantar todos os dias para serem melhores investigadores.
Tentem sempre olhar para o problema como uma página em branco, alargando constantemente o vosso leque de perspetivas. Nunca assumam que já sabem o suficiente e mantenham-se sempre em busca de novo conhecimento. Construam um portefólio diversificado de competências, incluindo as competências técnicas, científicas, mas também financeiras, sociais e de gestão, porque a ciência com impacto faz-se cada vez mais em equipa e em contextos multidisciplinares.