A revolução de papel: desenvolvimento de dispositivos para análises clínicas... sem a clínica

Segunda-feira, Janeiro 3, 2022 - 15:17
Noticia ESB A revolucao de papel

No grupo de investigação de Automatização e Miniaturização da ESB, liderado pelo Prof. António Rangel, foi criada pela Doutora Raquel Mesquita uma nova linha de investigação dedicada ao desenvolvimento de dispositivos analíticos inovadores para a área da saúde. Estes dispositivos destinam-se a diagnósticos precisos de baixo custo e sem necessidade de pessoal especializado ou equipamentos complexos. Em termos de utilidade faz pois sentido focar o trabalho em amostras de fluidos biológicos não invasivos e facilmente acessíveis, como a saliva e urina.

A análise ao ferro permite recolher informação relevante sobre o estado de saúde de um indivíduo: o ferro está envolvido em centenas de processos biológicos, para além de ser peça chave no transporte de oxigénio pelo sangue. Precisamente por ser tão importante o seu metabolismo é fortemente regulado e tanto a deficiência quanto o excesso podem causar danos graves. Algumas das doenças mais prevalentes associadas à desregulação do ferro são a anemia, a hemocromatose, o cancro e doenças neurodegenerativas como Parkinson e Alzheimer. A vantagem de ter à mão uma ferramenta de monitorização simples, rápida e eficaz é por isso evidente.

Até agora a liderança da Doutora Raquel Mesquita já conduziu ao desenvolvimento de um µPAD, um engenho à base de papel e onde é possível quantificar o ferro em amostras de urina de forma simples e imediata. Trata-se de um dispositivo descartável, de utilização muito fácil e que necessita de apenas algumas gotas de amostra – o que é notável. E, graças à sofisticação tecnológica, as suas dimensões não ultrapassam as de um cartão de crédito.

Este µPAD permite uma monitorização dos níveis de ferro na urina em tempo real e em qualquer local, mesmo remoto. A quantificação é diretamente nas amostras de urina, sem necessidade de manipulação prévia. Além disso, com um intervalo de aplicabilidade de 0,07 a 1,2 mg / L, abrange tanto casos de deficiência como de excesso deste metal. Os resultados são obtidos por digitalização do µPAD o que permite saber a quantidade de ferro com exatidão.

Esta é a primeira vez – tanto quanto se conhece – que foi desenvolvido um dispositivo para a quantificação de ferro na urina com estas características. Não é preciso ter muita imaginação para projetar um futuro onde muitas outras análises de rotina poderão também ser levadas a cabo em casa com toda a privacidade, rigor e conveniência.


O trabalho foi sistematizado num artigo científico publicado no Analytical and Bioanalytical Chemistry.