Diversidade bacteriana em água da captação à torneira

Quinta-feira, Junho 12, 2014 - 10:20
Diversidade bacteriana em água da captação à torneira

 

A água de consumo, geralmente produzida a partir de água superficial como rios e lagos, tem de ter características químicas e microbiológicas adequadas à preparação de alimentos, lavagens e outros fins domésticos. O modo como a água chega à torneira do consumidor depende de muitos passos, do armazenamento ao sistema de distribuição e até das torneiras propriamente ditas. Para maximizar a salubridade é normal uma fase de desinfeção, que elimina ou inibe muitos microrganismos na água. No entanto alguns podem sobreviver ou até tornar-se mais prevalentes com este processo, e daí o interesse e importância de se estudar este ecossistema microbiano tão particular.

Um dos desafios no estudo de bactérias em águas de consumo é que apenas 0,1% destes seres pode ser cultivado em laboratório e portanto muitas bactérias podem não ser detetadas em análises de rotina. Por outro lado, muitas bactérias das águas são ainda desconhecidas. A investigação desenvolvida na ESB, sob a direção da Prof. Célia Manaia, protende compreender quais as bactérias que existem nas águas de consumo e como elas são afetadas pela desinfeção.

Neste artigo, combinou-se o cultivo das populações bacterianas das água com a análise de genes bacterianos altamente conservados e pesquisados no DNA total. Estudaram-se amostras de uma estação de tratamento água (ETA), de um sistema de distribuição em alta e de torneiras de residências, abastecidas pela mesma ETA. Verificou-se que o tratamento da água teve como consequência um rearranjo da comunidade bacteriana, mais evidente nas bactérias cultiváveis. A desinfeção da água, principalmente através da cloragem, favorece as bactérias Gram-positivo e álcool-ácido resistentes em relação às Gram-negativo. Contudo, ao nível da torneira, a população de bactérias Gram-negativo volta a ser novamente predominante.

Além disso, em água da torneira os índices de diversidade e percentagens de cultivabilidade eram superiores às da água antes do tratamento. Desde a captação até à torneira, as linhagens predominantes era as Alpha-, Beta- e Gammaproteobacteria, havendo, no entanto um padrão específico para cada habitação, provavelmente devido a fatores como a temperatura, a frequência de consumo ou o material e estado de conservação da canalização.

Conclui-se assim que, apesar da eficácia do tratamento na eliminação ou inativação da maior parte das bactérias, a água que chega ao consumidor pode ter propriedades microbiológicas bem diferenciadas. O ressurgimento, ao nível da torneira, de diversas bactérias após a desinfeção é muito frequente e inesperado. Ou seja, não obstante a eficácia da desinfeção e a boa qualidade da água, existe a possibilidade de algumas bactérias potencialmente patogénicas chegarem de facto ao consumidor.

Este estudo encontra-se publicado na íntegra em: Vaz-Moreira, I., Egas, C., Nunes, O. C., Manaia, C. M. (2013) Bacterial diversity from the source to the tap: a comparative study based on 16S rRNA-DGGE and culture-dependent methods. FEMS Microbiology Ecology 83, 361-374.