Da espinha ao mercado: como a Brasmar transforma subprodutos do pescado em valor

Quarta-feira, Julho 8, 2026 - 12:04

Quando se pensa em inovação na indústria alimentar, é fácil imaginar novos produtos nas prateleiras. Mas para Marco Ferreira, Head of Quality do Grupo Brasmar, a verdadeira inovação vai muito além do produto final. Passa pela valorização do que sobra, pela circularidade dos processos e pela partilha de conhecimento entre empresas e centros de investigação.

Foi precisamente neste contexto que surgiu a colaboração com o CBQF, mais concretamente com Manuela Pintado e o projeto CROSSPATHS, uma iniciativa que procura criar pontes reais entre a investigação científica e as necessidades da indústria.

O Grupo Brasmar: dimensão global, desafios locais

O Grupo Brasmar é hoje um dos líderes da indústria alimentar no setor do pescado, com três unidades produtivas em Portugal, quatro em Espanha e uma na Noruega, além de presença comercial e logística nos Estados Unidos, no Brasil, no Reino Unido, em França e em Itália. Uma estrutura alargada que coloca desafios únicos em termos de I&D&I.

Em cada unidade produtiva, existe uma equipa dedicada à investigação e desenvolvimento. Para Marco Ferreira, essa atividade assenta em três grandes eixos: a sustentabilidade e valorização do pescado, o desenvolvimento de soluções inovadoras (que incluem produtos e processos) e a eficiência e robustez dos processos industriais.

"O I&D acaba por ser associado ao desenvolvimento de produto, e nós realmente queremos que seja distinto. Naturalmente, engloba o desenvolvimento de produto, mas queremos também estar bastante bem sustentados em termos de inovação", adianta.

Subprodutos: o potencial escondido do pescado

Um dos temas centrais da conversa com Marco Ferreira é a valorização dos subprodutos do pescado, uma área em que a Brasmar investe cada vez mais energia e que representa, segundo o próprio, "uma área estratégica para a Brasmar”.

Peles, espinhas de bacalhau, bocas de polvo, serradura de peixe, água de demolha, cada um destes subprodutos tem características específicas que importa categorizar e compreender antes de lhes atribuir um destino. E esse destino pode ser muito mais do que farinha de peixe.

"Sabemos que há um valor muito grande naquilo que são os nossos atuais subprodutos. Temos procurado algumas possibilidades, desde a produção de fertilizantes, à cosmética, à indústria do calçado ou até à indústria automóvel", explica Marco Ferreira. A lógica da economia circular está aqui bem presente, já que o output de um processo pode ser o input de outro setor, gerando valor onde antes existia desperdício.

Um exemplo concreto, já em prática, é o aproveitamento térmico da água de demolha. A temperatura baixa necessária para preservar a qualidade do pescado durante a demolha é depois utilizada, por troca térmica, para o sistema de ar condicionado dos escritórios. "Mas realmente queremos ir muito além. Isso é só um exemplo referente a um processo", admite Marco Ferreira.

Academia e indústria: quando os três pilares se encontram

Para Marco Ferreira, a colaboração com instituições de investigação é fundamental.

A lógica subjacente a esta convicção é de que a inovação acontece precisamente quando se consegue cruzar o conhecimento científico com a realidade industrial e com as necessidades do mercado. Estes são os três pilares que, segundo Marco Ferreira, precisam de estar alinhados para que qualquer projeto de investigação produza resultados verdadeiramente úteis.

A Brasmar tem cultivado parcerias com diversas instituições académicas, incluindo a Universidade Católica Portuguesa (através do CBQF), o ICBAS, a Universidade de Léon e a Universidade de La Rioja, em Espanha, bem como centros de investigação na Noruega.

A colaboração com os professores e investigadores do CBQF é destacada pelo responsável como um exemplo de parceria bem-sucedida, precisamente porque existe uma visão partilhada que vai além do laboratório.

"A Professora Manuela Pintado leva a perspetiva da indústria para dentro da Academia. Quem não está em contacto com a indústria não tem muita noção do que ela realmente precisa, quais são os verdadeiros problemas e as limitações", observa.

Os desafios reais das parcerias: timings e expectativas

Nem tudo, porém, corre sem fricção. Marco Ferreira é honesto ao identificar os principais obstáculos à colaboração entre empresas e academia, designadamente o desalinhamento de velocidades e de expectativas.

"A dificuldade de alinhar as expectativas entre todos é real. Nós desafiamo-nos dia a dia e às vezes vem daí alguma insatisfação. Sabemos que tudo leva o seu tempo, mas estamos a ver o caminho lá à frente e custa…"

Esta tensão entre o ritmo acelerado das empresas e o tempo necessário para a investigação científica é um dos grandes desafios dos ecossistemas de inovação. A solução, para Marco Ferreira, passa por projetos bem desenhados desde o início, que integrem as três dimensões essenciais: investigação, realidade industrial e mercado.

O projeto CROSSPATHS: a ponte que faltava

É neste contexto que o projeto CROSSPATHS se revela particularmente relevante. Trata-se de uma iniciativa que promove a ligação entre investigação e indústria, através de workshops, intercâmbio entre investigadores de diferentes países e a criação de redes de contacto entre parceiros industriais e centros de investigação.

Para Marco Ferreira, o CROSSPATHS representa exatamente o modelo que faz sentido, uma vez que, afirma, "promove esta identificação de necessidades reais das empresas e potencia essas futuras sinergias entre a investigação e a indústria, que nem sempre está tão bem ligada".

Assim, o projeto tem promovido através dos co-creation workshops (que já se realizaram em Portugal, Estónia e Polónia), eventos em que a academia contacta com a indústria, as organizações governamentais e não governamentais da localidade que organiza o evento e envolve diferentes atores locais com o consórcio internacional.

Integração, agilidade e visão estratégica

Quando questionado sobre o que seria o modelo ideal de colaboração com a Academia, Marco Ferreira é claro. Mais do que projetos pontuais, a Brasmar quer parcerias focadas no desenvolvimento de soluções, designadamente a valorização dos chamados subprodutos, área com grande potencial e onde a Academia é uma clara mais-valia.

"Muitas organizações quando falam em sustentabilidade, pensam logo no ambiente. Mas  é uma visão incompleta reduzir a sustentabilidade apenas à dimensão ambiental. A sustentabilidade vai muito mais além das questões ambientais", sublinha.

O responsável aponta também para a transformação acelerada que o setor alimentar atravessa, com consumidores mais exigentes, crescente preocupação com a saúde e a sustentabilidade, pressão sobre recursos naturais e o impacto da inteligência artificial nos processos de pesquisa e análise.

Tudo isso obriga as empresas a serem mais ágeis, mais resilientes e mais inovadoras e é aqui que a academia pode fazer a diferença.

"A evolução do setor incute-nos a acelerar esta transformação, que tem acontecido no setor alimentar. E neste modelo, cai muito bem esta interação com a Academia, porque já traz muito know-how que pode tornar as organizações mais ágeis, mais resilientes e mais inovadoras", conclui Marco Ferreira.