O Porto entre a memória e o futuro: identidade em tempo(s) de transição

Tuesday, May 26, 2026 - 11:20

O que faz de uma cidade aquilo que ela é? É a pedra das suas ruas, a traça dos seus edifícios, os rostos que a habitam ou algo mais difícil de nomear, uma espécie de alma sedimentada ao longo de séculos?

Foi em torno desta questão que se reuniram, num debate do ciclo Conversas sobre Ciências & Sociedade, o presidente da Câmara Municipal do Porto, Pedro Duarte, e o historiador Joel Cleto, moderado pela diretora da Escola Superior de Biotecnologia, Paula Castro, para discutir a identidade da cidade o que ela é, donde vem, e o que a ameaça.

A escolha do Porto como mote não foi acidental. Talvez nenhuma outra cidade portuguesa encerre de forma tão intensa a tensão entre o enraizamento e a transformação, entre o orgulho das origens e a pressão de um presente que muda a ritmos sem precedente. E, como sublinhou logo Joel Cleto, "a identidade é algo de notável e tem muito a ver com as dinâmicas da sociedade". Não é um monumento fixo. É um organismo vivo.

Uma herança de 2500 anos

Para compreender o Porto de hoje, há que recuar até ao princípio, literalmente. "Nas origens do Porto está lá tudo", afirmou Cleto com a convicção de quem dedicou décadas a estudar a cidade. "É uma cidade que só podia nascer onde nasceu, ali no morro da Pena Ventosa e na Sé. São 2500 anos de ocupação contínua da cidade".

Há nesse dado geográfico e histórico uma espécie de destino manifesto. O Porto não foi fundado por acaso, foi escolhido pela sua posição, pelo rio, pelo mar próximo, pela colina que domina tudo à volta.

Mas a antiguidade das raízes não significa imobilidade e Joel Cleto foi claro a este respeito. "A identidade é algo que recebemos de gerações anteriores e que queremos passar às gerações seguintes. Recebemos, valorizamos e queremos projetar para o futuro". É uma cadeia de transmissão, não uma peça de museu.

O Porto é uma exceção?

Pedro Duarte chegou ao debate com uma perspectiva que é, simultaneamente, a de quem governa e a de quem sente a cidade como habitante. "O Porto talvez seja uma exceção em termos de identidade", disse, reconhecendo no mesmo fôlego que a palavra se tornou quase incómoda no discurso público.

"É saudável falar em identidade, porque quase que se tornou um termo maldito. É muitas vezes usada de forma abusiva, para marcar divergências, mas não nos podemos deixar condicionar."

As camadas da identidade

Um dos momentos mais ricos do debate foi a destrinça das diferentes dimensões que compõem a identidade de uma cidade. Para Pedro Duarte, há pelo menos três patamares distintos.

O primeiro é físico e patrimonial, o conjunto edificado, os espaços, os símbolos construídos ao longo dos séculos. O segundo tem uma componente simbólica e social "como o Futebol Clube do Porto ou o facto de sermos conhecidos por trocar o v pelo b". O terceiro, e talvez o mais fundamental, é imaterial.

"É emocional. Como dizia Agustina Bessa-Luís, o Porto não é um lugar, é um sentimento. Há um espírito tripeiro, muito próprio, mesmo com as naturais discordâncias que sempre existem na comunidade".

Joel Cleto corroborou esta dimensão imaterial. "A identidade tem também uma dimensão imaterial e isso define o Porto, com tradições e memórias". E acrescentou uma observação que é simultaneamente óbvia e frequentemente esquecida.

"O património tem muito de identitário e a identidade muito de patrimonial." As duas realidades alimentam-se mutuamente e não é possível preservar uma sem cuidar da outra.

Sobre o clube que tantas vezes é brandido como símbolo da identidade da cidade, ambos os oradores estiveram de acordo. Joel Cleto observou que "hoje parte da cidade revê-se identitariamente com o Futebol Clube do Porto", enquanto Pedro Duarte incluiu o clube na sua enumeração dos elementos simbólicos e sociais da identidade.

Mas ficou também implícito que a identidade de uma cidade com dois milénio e meio de história é, necessariamente, muito mais do que um emblema desportivo com pouco mais de um século de existência. Como disse o historiador numa formulação lapidar "mais do que a forma, fundamental é a essência."

Gentrificação: o problema não é novo

A palavra gentrificação tornou-se omnipresente nas conversas sobre o Porto. As preocupações são legítimas. São bairros históricos que mudam de carácter, moradores que deixam de ter possibilidades financeiras de viver no centro da cidade, um avanço imparável do turismo que risca o verniz da autenticidade.

Mas Joel Cleto, historiador que conhece bem as transformações da cidade ao longo dos séculos, veio relativizar o carácter inédito do fenómeno.

"Tem-se falado muito de gentrificação ultimamente, mas esta gentrificação não é a maior que o Porto conheceu", advertiu. Recordou que "nos anos 1970/1980, milhares de pessoas foram transferidas do centro histórico do Porto, onde viviam em ilhas verticais, insalubres e sem condições de habitabilidade, para os novos bairros de Ramalde ou Aldoar".

E recuando ainda mais, "se formos ao século XIX, encontramos um fenómeno de gentrificação ainda maior, com um grande número de famílias a sair do centro para geografias mais laterais, como Cedofeita ou Campanhã". A grande ironia histórica é que esse esvaziamento foi preenchido por uma vaga de imigração "proveniente de regiões como o Trás-os-Montes, o Minho ou a Galiza".

Ou seja, o Porto sempre foi uma cidade de chegadas e partidas, de substituições e reinvenções.

Mas esta perspectiva histórica não equivale a uma demissão perante os desafios do presente. Pedro Duarte não se esquivou ao problema e lembrou que "a demografia do Porto tem vindo a alterar-se, a economia mudou drasticamente, principalmente com a ascensão do turismo. Estes abalos trazem riscos à preservação desta identidade de que estamos a falar".

O presidente da Câmara reconheceu que a dinâmica económica recente "tem sido muito positiva para a cidade", mas deixou o aviso de que "há sempre um momento em que essa dinâmica pode deteriorar a identidade própria da cidade. E quando isso acontece, o Porto tal e qual o conhecemos fica em risco".

O papel da política

O debate não podia deixar de tocar na responsabilidade de quem governa. "Temos que ter a noção de que a identidade tem uma abordagem cultural que o discurso político e as políticas públicas podem alterar de forma clara", afirmou Pedro Duarte, assumindo que a neutralidade não é uma opção.

Preservar ou deixar erodir a identidade de uma cidade é sempre uma escolha, activa ou por omissão.

Ao mesmo tempo, Joel Cleto lançou um alerta que serve de contrapeso ao excesso de rigidez, frisando que "a identidade está permanentemente a ser moldada e se olharmos para ela de forma muito rígida pode dar mau resultado".

Uma identidade que não evolui, que se petrifica na nostalgia, deixa de ser uma força viva para se tornar um simulacro, uma encenação para consumo turístico, precisamente o risco que ambos os oradores queriam evitar.

O equilíbrio, disse Pedro Duarte, é o grande desafio político. "É preciso um ponto de equilíbrio entre uma realidade de evolução e o elemento essencial que não podemos descurar".

E não tem medo de reconhecer que essa busca de equilíbrio implica decisões impopulares. "Quem tem responsabilidades políticas tem que fazer opções. Muitas decisões não são populares, mas no fim o bem comum sai privilegiado".

O Porto como questão em aberto

O debate encerrou sem respostas definitivas, o que, afinal, é o sinal de uma conversa intelectualmente honesta. Ficou claro que a identidade do Porto não é um património dado de uma vez por todas, mas algo que cada geração tem de conquistar e reinterpretar.

Como resumiu Joel Cleto, "a qualidade de vida também passa pela valorização da identidade". Não é um luxo de cosmopolitas nem uma obsessão de conservadores. É uma condição de bem-estar colectivo.

O Porto tem, afirmou, Pedro Duarte, "um espírito tripeiro, muito próprio." Resistiu a invasões, a epidemias, a revoluções e a crises económicas. Sobreviveu às suas próprias gentrificações históricas.

A questão que fica é se, desta vez, a velocidade e a escala da transformação são diferentes o suficiente para exigir respostas também diferentes.