O futuro da medicina já chegou ao presente – e é inteligente

Segunda-feira, Junho 7, 2021 - 11:03

Do livro Frankenstein ao filme ET (ou, mais recentemente, O Marciano, Arrival, Interstellar, Tenet e tantos outros) a ficção científica é uma parte integrante da nossa cultura e perceção do futuro. O que talvez seja menos evidente é quanto a tecnologia já evoluiu e como se confunde com a ficção em áreas que tocam diretamente o dia-a-dia do cidadão comum. Essa transformação permite, por exemplo, ir substituindo práticas médicas de modo a tornar os cuidados de saúde menos invasivos, mais rápidos, menos dispendiosos e sem necessidade de deslocações.

Numa das suas linhas de investigação o Prof. Doutor Pedro Rodrigues, da Escola Superior de Biotecnologia, acabou de publicar no Journal of Voice, editada pela Elsevier e uma das revistas científicas mais prestigiadas na sua área, um artigo onde demonstra a viabilidade de aplicar métodos de inteligência artificial (IA) ao reconhecimento de voz – e a partir daí identificar certas patologias nas cordas vocais.

O desconcertante é a capacidade que os algoritmos sofisticados de IA apresentam de... aprender. Isso permitiu aumentar a precisão de deteção das patologias relativamente ao estado da arte: tudo leva a crer que estamos chegados ao momento em que podemos abdicar de vez dos métodos invasivos utilizados hoje em dia na prática clínica.

As pessoas que sofrem de nódulos vocais, edema de Reinke e doenças neurológicas são tipicamente sujeitas a estroboscopias e a laringoscopias (realizadas em ambiente hospitalar). Estes exames demoram entre meia e uma hora e causam desconforto ao paciente - nalguns casos dor significativa. No método agora desenvolvido basta gravar a voz e enviá-la para o software que analisa os parâmetros necessários e emite o diagnóstico. A precisão varia atualmente entre 90 e 100% mas com o passar do tempo – e aprendizagem – a tendência é aproximar-se cada vez mais dos 100%.

O próximo passo é alargar a base de dados (são precisos milhares de gravações) e aumentar o leque de patologias abrangidas. Só então se atinge o nível onde a comercialização é interessante. Segundo Pedro Rodrigues, «Atualmente os exames hospitalares custam cerca de 25€ cada. Se pensarmos que a voz pode ser facilmente gravada pelo médico num smartphone onde uma app a lê e analisa de imediato rapidamente se percebe a vantagem. A evolução da medicina passa pelo desenvolvimento de cada vez mais ferramentas de inteligência artificial.»

O artigo «Voice disorders detection through multiband cepstral features of sustained vowel» (Deteção de distúrbios de voz através de características cepstrais multibanda de vogal sustentada) está online em https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S0892199721000424