Como as folhas de oliveira podem ir de passivo ecológico a oportunidade de negócio

Quinta-feira, Dezembro 23, 2021 - 14:50

Por: Ana Silva Oliveira

Folhas de Oliveira

A oliveira (Olea europaea, L.) está entre as espécies de árvores frutíferas mais antigas e mais conhecidas do mundo. Reza a lenda que foi criada pelos deuses, aquando de uma competição, mas o seu simbolismo atual é de paz e abundância – certamente associado ao relato da Arca de Noé no livro do Génesis, onde o ramo de oliveira anunciou o fim do dilúvio.

Em Portugal o azeite (o az-zait árabe) tinha importância de contornos sagrados desde tempos imemoriais, muito antes de o país ter tomado forma, e sempre ocupou lugar de destaque na dieta, na saúde e até na arte.

Atualmente, claro, a vertente económica ganhou preponderância. Portugal é o 7º maior produtor mundial de azeite, com tendência para subir. As 100 mil toneladas de azeite produzidas são extraídas de cerca de 715 mil toneladas de azeitona. Este diferencial mostra que a olivicultura gera grandes quantidades de resíduos para os quais as aplicações ainda são muito limitadas. Só da poda das oliveiras resultam anualmente 25 kg de subprodutos (ramos e folhas) por árvore. Estes materiais são, para todos os efeitos, recursos biológicos, mas geralmente acabam por ser descartados ou queimados. Mas quem é que não gostaria de encontrar uma utilidade para as mais de 300 mil toneladas anuais de restos de podas que se estima serem produzidas em Portugal?

Um dos grupos de investigação da Escola Superior de Biotecnologia, liderado pela Professora Doutora Manuela Pintado e composto pelos investigadores Ana Oliveira, Sheila Gondim, Ricardo Gómez-García e Tânia Ribeiro, dedicou-se a responder precisamente a esse desafio. Já se sabe que as folhas de oliveira são ricas numa grande variedade de compostos com potencial antioxidante (ou seja, que podem ajudar a proteger do envelhecimento precoce diversos tecidos vivos como por exemplo na sequência de exposição à radiação ultravioleta vinda do sol) e também com efeito antibiótico. Até que ponto é que isso pode ser interessante a alguma indústria?

A pesquisa focou-se em duas variedades cultivadas em Portugal: a «Negrinha do Freixo», cultivada em Trás-os-Montes, e a «Cornicabra», tipicamente produzida na Beira Alta. O intuito foi sobretudo identificar e caracterizar ao pormenor as substâncias presentes na folha de oliveira com vista à sua utilização comercial.

A variedade «Negrinha de Freixo» revelou-se de longe a mais interessante. Foram descobertos cerca de 40 metabolitos secundários com forte atividade antioxidante. Esta funcionalidade foi medida através do efeito inibidor em enzimas como a elastase, colagenase e tirosinase. Estas contribuem para a desagregação dos tecidos que gostaríamos de manter íntegros e como tal são um alvo natural dos ingredientes antienvelhecimento empregues na área cosmética.

Também foi demonstrada a atividade antibacteriana. Os extratos de folhas revelaram-se capazes de inibir microrganismos como Escherichia coli, Salmonella enterica, Staphylococcus aureus, Pseudomonas aeruginosa e Bacillus cereus – tudo bactérias que a indústria alimentar precisa de conseguir controlar. O estudo realizado mostrou assim que é possível olhar para certos subprodutos da olivicultura como oportunidades, e não como passivos que contribuem para as alterações climáticas. O trabalho vai entrar na fase de contactos com empresas para equacionar oportunidades de negócio.

O trabalho foi sistematizado num artigo científico publicado no Journal of Environmental Chemical Engineering em outubro de 2021.