A Católica no Porto e a Ciência: o universo da investigação

Quinta-feira, Novembro 24, 2022 - 17:47

Porquê celebrar a Ciência? Na Católica no Porto, a investigação conta com sete centros de investigação e mais de 415 docentes e investigadores nas áreas da Biotecnologia, Artes, Direito, Economia, Gestão, Psicologia, Educação, Ciências da Saúde e Teologia. Esta multidisciplinaridade, que tão bem caracteriza a Católica no Porto, dá corpo a uma investigação que é cada vez mais ambiciosa e com um imenso impacto na sociedade.

A investigação na Católica no Porto está atenta não só às fronteiras do conhecimento, mas, também, às suas implicações éticas e sociais. Professores, investigadores e estudantes trabalham com e para a sociedade, desde o cidadão individual, ao parceiro industrial e empresarial, por vezes, ultrapassando as barreiras das áreas disciplinares. E são muitos os projetos de investigação assinados pelos centros de investigação e faculdades da Católica no Porto. Neste Dia Mundial da Ciência, celebrado a 24 de novembro, partilhamos exemplos de alguns dos nossos projetos de investigação que impactaram a sociedade e que contribuem para o seu progresso.

 

Arte, património e alterações climáticas

Como é que através da arte e do património se pode dar resposta ao problema da Mudança Climática? O projeto chama-se “Heritage, art, creation for climate change – living the city: catalyzing spaces for learning, creation and action towards climate change” (HAC4-CG) e tem como objetivo o envolvimento da comunidade no problema das alterações climáticas. Centrado na cidade do Porto, o projeto conta com três linhas de investigação: o envolvimento do cidadão na proteção do património; o envolvimento do cidadão através da criação artística e o papel da governança local, instituições e comunidades na mitigação e adaptação às alterações climáticas. A cidade do Porto é, assim, o caso de estudo para uma abordagem a um problema global.

Liderado pelo Centro de Investigação em Ciência e Tecnologia das Artes (CITAR), da Escola das Artes, o projeto enquadra-se na resposta à missão do Horizonte Europa Alterações Climáticas, incluindo as Transformações Societais. Este projeto interdisciplinar envolve unidades de investigação parceiras - como o Centro de Estudos em Gestão e Economia (CEGE), o Centro de Biotecnologia e Química Fina (CBQF), o Centro de Investigação Interdisciplinar em Saúde (CIIS) e o Centro de Investigação para o Desenvolvimento Humano (CEDH) -, o que permite uma maior abrangência e, portanto, maior impacto.

Eduarda Vieira, docente e investigadora da Escola das Artes e coordenadora do projeto, explica que “o impacto previsto engloba o aumento da competitividade e internacionalização da região, a promoção do turismo verde, a criação de redes especificas de indústrias criativas, a proteção do património através da aplicação da Inteligência Artificial à monitorização do património em espaço público e o uso de nanotecnologias para a sua manutenção, a criação de um observatório de práticas de reabilitação na cidade e fenómenos dinâmicos associados (consumos alimentares entre outros), e ainda a criação de recomendações de políticas sustentáveis direcionadas às autoridades regionais destinadas a regular alguns dos atuais drivers económicos como o turismo de massas e promoção da cidade e das comunidades urbanas.”

 

“Inspirarmo-nos na natureza é fundamental”

Sabia que o muco segregado pelos peixes costeiros de Macau e de Portugal desempenha vários papéis ecológicos e fisiológicos? O projeto, desenvolvido pelo Centro de Biotecnologia e Química Fina, da Escola Superior de Biotecnologia, chama-se “Bioactive properties of external mucus isolated from coastal fish of Macao and Portugal” (FISHMUC) e visa explorar as funções, os mecanismos de ação e as propriedades bioativas do muco segregado pelos peixes costeiros de Macau e de Portugal.

“Como parte da procura por soluções sustentáveis para os nossos problemas, como aqueles que comprometem a nossa saúde, inspirarmo-nos na natureza é fundamental. Nesse sentido, os biomas marinhos podem oferecer-nos um conjunto alargado de compostos com propriedades benéficas no nosso organismo, que são conhecidos como compostos bioativos”, explica Ezequiel Coscueta, investigador do projeto. Manuela Pintado, María Emilia Brassesco e Marta Cunha, investigadores do CBQF, integram, também, a equipa de investigação do FISHMUC.

O projeto combina o conhecimento em fisiologia e ecologia de peixes das equipas do Institute of Science and Environment, da University of Saint Joseph - Macau, e do MARE – Centro de Ciências do Mar e do Ambiente, do ISPA - Instituto Universitário de Ciências Psicológicas, Sociais e da Vida, com a experiência na extração, isolamento e testes bioativos de compostos naturais da equipa do CBQF. O estudo abrangerá diferentes espécies de peixes, regiões geográficas e habitats e testará várias propriedades bioativas com o objetivo de aumentar o potencial de identificação de moléculas de interesse. 

 

A investigação em Direito: analisar o passado e projetar o futuro

“A criatividade, a inovação e a flexibilidade são caraterísticas importantes em qualquer área da investigação”: as palavras são de Conceição Cunha, investigadora do Católica Research Centre for the Future of Law da Faculdade de Direito – Escola do Porto.

O projeto chama-se Hands-UP e pretendeu responder aos desafios de desmistificar e clarificar o conceito de castigo corporal, e as suas consequências físicas e psicológicas, promovendo a adoção de práticas disciplinares positivas.

Conceição Cunha, explica que no Hands-Up “a análise de velhos costumes e velhos preconceitos acerca da educação das crianças permitiu-nos compreender a gravidade da “escalada de violência” a que muitas são sujeitas, assim como da tolerância social que tem permitido que esta situação se vá perpetuando.”

“Para se tentar resolver este problema tornou-se necessário um estudo interdisciplinar, em que Direito e Psicologia andaram de “mãos dadas”, propondo-se modos diferentes de educar, que implicam a educação dos próprios pais e outros educadores, assim como novas formas de intervenção jurídica, nem sempre passando, necessariamente, pela intervenção penal (que deverá manter-se como ultima ratio), mas exigindo-se tal intervenção nas situações mais graves e face às quais outras formas de intervenção (através da Lei de Proteção de Crianças e Jovens em Perigo) sejam insuficientes”, acrescentou. Porque, claro, “em primeiro plano deverá estar sempre o interesse da criança.”

Integraram o projeto a promoção de ações de formação em “disciplina positiva” para pais e outros educadores, campanhas de sensibilização da comunidade e sessões de formação sobre maus tratos a crianças para profissionais da área da saúde, educação e justiça.

 

O Estado Regulador em Portugal: um “céu cinzento, com abertas”

“O Estado-Regulador em Portugal: Evolução e Desempenho” é o nome do novo estudo da Fundação Francisco Manuel dos Santos (FFMS) que foi coordenado por Ana Lourenço, docente e investigadora da Católica Porto Business School (CPBS), e que visa analisar a independência das entidades reguladoras em Portugal e o impacto da criação do Tribunal da Concorrência, Regulação e Supervisão. O estudo, realizado no âmbito do Centro de Estudos de Gestão e Economia Aplicada (CEGEA), contou ainda com colaboração de um conjunto de docentes da CPBS, nomeadamente: Ricardo Gonçalves e Vasco Rodrigues (autores); Filipa Mota, Mariana Cunha, Rafael Dias e Sandra Coelho (colaboradores).

O estudo analisa o funcionamento, a independência e a politização das entidades reguladoras no desempenho de funções essenciais delegadas pelo Estado, nomeadamente a supervisão de setores económicos como a energia e as comunicações, e a garantia da concorrência.

O ponto de partida foram algumas perguntas muito concretas: A aprovação da Lei-Quadro das Entidades Reguladoras, em 2013, conduziu efetivamente a uma maior independência das entidades reguladoras portuguesas? Que balanço se pode fazer da criação do Tribunal da Concorrência, Regulação e Supervisão? A sua constituição conduziu a um aumento da rapidez, eficiência e qualidade da justiça? E a resposta a estas e outras questões, chegou através da avaliação da independência de três entidades reguladoras: a Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos (ERSE), a Autoridade da Concorrência (AdC) e a Autoridade Nacional de Comunicações (ANACOM).

“Este é o primeiro estudo que analisa o que mudou no Estado Regulador em Portugal após a aprovação da Lei-Quadro das Entidades Reguladoras e a criação do Tribunal da Concorrência, Regulação e Supervisão. Fica, em conclusão, a imagem de um “céu cinzento, com abertas”, afirma Ana Lourenço. A investigadora acrescenta, também, que “seria muito bom que outras equipas, usando os mesmos modelos, alargassem a análise a outras entidades reguladoras em Portugal.”

 

O efeito dos jogos de telemóvel na ansiedade

GAIN ou Games for Anxiety Inquired through Neuroscience consiste num projeto de investigação do Human Neurobehavioral Laboratory (HNL), que visa estudar o efeito dos jogos de telemóvel na ansiedade e nas funções neurocognitivas.

Patrícia Oliveira-Silva, diretora do HNL da Faculdade de Educação e Psicologia, explica que se têm adaptado experiências “gamificadas” das neurociências com jogos comerciais desenvolvidos para diminuir a ansiedade ou potenciar a atenção. Desta forma, é possível validar o seu impacto e a eficácia ao nível do funcionamento cerebral. A diretora do HNL explica, também, que esta é a abordagem adotada porque “não seria possível usar métodos de investigação mais tradicionais.”

Este projeto tem como base a parceria com várias empresas, o que representa um novo motor de inovação para a academia. É preocupação do HNL que a investigação realizada tenha uma forte adesão à realidade, porque “apenas desta forma conseguimos dar resposta aos problemas da sociedade.”

 

Software e tratamento de feridas

O projeto ClinicalWoundSupport, do Centro de Investigação Interdisciplinar em Saúde do Instituto de Ciências da Saúde – Porto, tem como principal objetivo a investigação, o desenvolvimento e a validação de uma solução de apoio à gestão e de suporte à decisão/ação clínica para a monitorização e tratamento de feridas. Na fase inicial do projeto será dada particular atenção ao estado da arte e identificadas as necessidades dos intervenientes no processo de modo a definir os requisitos da solução. Posteriormente, serão desenvolvidas as diferentes funcionalidades como a ferramenta de captura de imagens de feridas e de pensos de modo a agilizar o processo de registo da ferida, desenvolvidos algoritmos para a determinação semiautomática de propriedades das feridas, nomeadamente os diferentes tipos de tecidos e construídas árvores de decisão para o apoio na monitorização e tratamento das feridas e sistemas de criação de alertas baseados nas informações anteriores.

A solução final, baseada em software, destina-se a dois tipos de utilizadores: por um lado uma aplicação móvel para prestadores de cuidados de saúde no âmbito das feridas, capaz de captar a imagem da ferida, integrar informação clínica diferenciada acerca da mesma, bem como apoiar na seleção da intervenção terapêutica adequada; e por outro uma plataforma Web para gestores de unidades de saúde, responsável por integrar os dados adquiridos em termos da evolução das feridas de acordo com as intervenções terapêuticas implementadas, para possibilitar a identificação das opções mais promissoras em termos de eficácia e custos de gestão.

“A aquisição automática da informação, a precisão e a segurança dos dados recolhidos são três elementos fundamentais para a segurança e qualidade dos cuidados prestados”, explica Paulo Alves, diretor do Instituto de Ciências da Saúde – Porto e investigador do Centro de Investigação Interdisciplinar em Saúde.  “Permite ainda a monitorização da evolução da cicatrização e receber recomendações para a otimização dos cuidados”, acrescenta.

A nossa investigação caracteriza-se pelo seu olhar atento ao que acontece à nossa volta, em áreas tão diversas como a envolvente social, o sector empresarial ou as temáticas ambientais, e projeta-se a nível internacional, onde temos vindo a ter impacto crescente.”, afirma Célia Manaia, vice-presidente para a Investigação e Internacionalização da Católica no Porto. “Esta é uma maneira de estar que influencia o modo como inspiramos os nossos estudantes a terem um olhar crítico e vontade de induzir mudanças”, acrescenta.

Afinal, porquê celebrar a ciência na Católica? Porque a Ciência é um dos pilares da Universidade Católica Portuguesa, enquanto parte integrante da sua missão de promover a formação académica de qualidade e o cultivo da ciência, investigação e inovação para o bem-comum.