Melões, mercados e milhões

Tuesday, April 27, 2021 - 15:07

Se gosta de comer fruta crua as chances são de que tem uma ingestão adequada de vitamina C. Mas a pandemia fez a procura dos suplementos à base de vitamina C aumentar cerca de 70% em doze meses, o que significa um aumento de centenas de milhões de euros num mercado que se antecipa continue a crescer ao longo dos próximos anos. Esta vitamina C em suplementos tem um valor médio de 200€/kg, que não é de desperdiçar.

Mas e se andarmos, de facto, a desperdiçar? Às toneladas?

Em Portugal produzem-se anualmente cerca de 47 mil toneladas de melão, sobretudo na metade Sul do país. Dessas, cerca de 1/3 são descartadas por não serem comestíveis (é sobretudo casca). Ora esses resíduos... são uma fonte de vitamina C. No caso do melão Pele de Sapo, uma das variedades mais comuns, há cerca de 190g de vitamina C por tonelada de casca, o que significa um potencial de cerca de 600 mil euros anuais na parte do melão que vai para o lixo.

Claro que este cálculo é um valor bruto que não leva em consideração despesas básicas com transporte, extração ou purificação. Mas por outro lado a vitamina C não é a única substância interessante nos desperdícios de melão, e pode nem ser a mais bem paga. Outras moléculas bioativas com propriedades antioxidantes, antimutagénicas, antivirais, antibióticas e destoxificantes estão igualmente presentes em abundância relativa.

Além disso, e de forma mais simplificada, a produção de farinhas (obtidas por desidratação e moagem) ou pastas (obtidas por trituração) pode resultar em ingredientes alimentares de valor acrescentado tanto na alimentação humana como animal.

Ainda estaremos longe de uma estratégia integrada de rentabilização dos resíduos da produção meloeira, mas a tarefa inicial de caracterização já está feita. Este trabalho foi realizado no Centro de Investigação da Escola Superior de Biotecnologia da Universidade Católica, no Porto, com a colaboração de um investigador do Departamento de Química e Bioquímica da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto. Pode consultar aqui o artigo científico com os dados desta investigação.